Nesta publicação, colocamos trechos que discutem: a fundamental importância da permanência do tradicional na literatura infantil, como também, como deve ser um livro de literatura infantil, e a falta de bibliotecas infantis que correspondam a uma necessidade do nosso tempo.
Nas sociedades modernas, a tradição está agonizando. Aprender, restringe-se, então, à escola, responsável pela introdução da criança na leitura e na escrita. Cecília Meireles distingue, no entanto, a função desempenhada pelos livros didáticos daquela que compete aos livros de literatura infantil no processo educacional. Os primeiros são livros de aprender a ler, as séries de leituras graduadas que os completam, os livros das diferentes disciplinas. São didáticos, pois, “o que se tem em vista é o exercício da linguagem e a obediência a estas ou àquelas recomendações pedagógicas”, ficando o texto na dependência desse mecanismo, “sem grandes possibilidades para a imaginação” (MEIRELES, 1979, p23). Esses livros apenas excepcionalmente possuem interesse literário, por um “milagre do autor” (Idem).
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É um livro de literatura infantil, portanto, aquele que reúne essas características:
“Ah! tu, livro despretensioso, que na sombra de uma prateleira, uma criança livremente descobriu, pelo qual se encantou, e sem figuras, sem extravagâncias, esqueceu as horas, os companheiros, a merenda... tu, sim, és um livro infantil, e o seu prestígio será, na verdade, imortal.
Pois não basta um pouco de atenção dada a uma leitura, para revelar uma preferência ou uma aprovação. É preciso que a criança viva sua influência, fique carregando para sempre, através da vida, essa paisagem, essa música, esse descobrimento, essa comunicação...” (MEIRELES, 1979, p 28).
A literatura infantil não é um passatempo e sim uma nutrição e o seu valor só será apropriado se houver uma leitura silenciosa e seguida. Daí o espaço privilegiada de leitura não ser a sala de aula e sim a biblioteca, seja ela particular, pública ou escolar. Dentro do projeto dos escolanovistas, a biblioteca escolar assume um lugar fundamental na formação. É um espaço estruturalmente ligado à sala de aula e não apenas uma instituição anexa. É o espaço onde se encontram os livros de consulta para pesquisas bem como os livros de literatura infantil.
Para Cecília Meireles, “as bibliotecas infantis correspondem a uma necessidade do nosso tempo, visto não existirem mais amas nem avós que se interessem pela doce profissão de contar histórias.” (Idem , p 111). O seu acervo deve promover o humanismo infantil.
Para LARROSA (1996), a biblioteca humanística traz implícita uma determinada concepção de A função da literatura infantil é dar à criança o acesso ao tempo da tradição, formando um humanismo básico e apontando para a direção do homem de compreensão universal, base da fraternidade.tempo. Ela encarna o tempo histórico e coletivo da cultura e o leitor, ao realizar a leitura, estabelece uma relação com o tempo da tradição e da cultura. Essa cultura é interiorizada através do mecanismo da reflexão.
Cecília Meireles finaliza seu livro Problemas da literatura infantil com os versos atribuídos à Bárbara Heliodora:
“Meninos eu vou ditar
as regras do bom viver
não basta somente ler,
é preciso meditar,
que a lição não faz saber,
quem faz sábios é o pensar” (p 117).
A ligação com o tempo da cultura determina a matéria-prima do acervo da biblioteca infantil moderna. A maior parte dos livros dessas bibliotecas deveria ser composta por adaptações de antigas narrativas que “pertencem ao tesouro geral da humanidade” (Idem, p 42). Para ela, é fundamental a permanência do tradicional na literatura infantil.
“Insistimos na permanência do tradicional na literatura infantil, tanto oral quanto como escrito, porque por ele vemos um caminho de comunicação humana desde a infância que, vencendo o tempo e as distâncias, nos permite uma identidade de formação. Por essa comunhão de histórias, que é uma comunhão de ensinamentos, de estilos de pensar, moralizar e viver, o mundo parece tornar-se fácil, permeável a uma sociabilidade que tanto se discute.
Se as religiões tentam realizar a fraternidade estabelecendo princípios que tornam os homens reconhecíveis à luz do seu credo, essa moral leiga ajuda a realizar tal fraternidade, estabelecendo uma compreensão recíproca à luz das mesmas experiências milenares, traduzidas em narrativas amenas.
A literatura tradicional apresenta esta particularidade: sendo diversa em cada país, é a mesma no mundo todo. É que a mesma experiência humana sofre transformações regionais, sem por isso deixar de ser igual nos seus impulsos e idênticas nos seus resultados. Se cada um conhecer bem a herança tradicional do seu povo, é certo que se admirará com a semelhança que encontra, confrontando-a com a dos outros povos. (...) É um humanismo básico, uma linguagem comum, um elo entre as raças e os séculos” (MEIRELES, 1979,p 64).
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A presença de livros seculares na literatura infantil se explica porque possuem uma “essência de verdade” e porque possuem “qualidade de estilo irresistível”. De qualquer maneira, “o milagre fundamental está nas mãos do autor” (Idem, p 91).
Cecília Meireles aponta para a inexistência, no Brasil, de autores que se dediquem a fazer livros infantis, como por exemplo, Constâncio Vigil, na Argentina e Selma Lagerlof, na Suécia, ganhadora do prêmio Nobel de literatura em 1909.
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Segundo LARROSA (1996), a educação pontua o tempo no passado e no futuro, indicando assim tanto a conservação da tradição como a sua renovação. Se essa renovação dá-se a partir do leitor, de sua reflexão, na biblioteca infantil ela ocorre pela mediação do autor contemporâneo – o intelectual que se debruça sobre a cultura tradicional para a partir dela estabelecer relações originais. É esse o destaque que Cecília Meireles dá à obra de Selma Lagerlof, A viagem maravilhosa de Nils Halgerson.
“Quando se considera a grande obra de Selma Lagerlof, (...), e se reflete sobre os elementos que a inspiraram, não se pode deixar de perceber o valor da influência do tradicional e popular, representado pelos trovadores, pelas velhas contadoras de histórias, pelos monges compiladores de lendas: os credores que trouxeram sua contribuição oral para a formação dessa vida, iluminada ainda pela literatura clássica nacional, e pelas epopéias que são também a mais remota tradição, cristalizada...
(...)
Em todas as grandes vidas, esse elemento tradicional aparece como raiz profunda, que penetra igualmente o solo da pátria e o solo do mundo; que vem da infância de cada um e da infância de todos, e concorre para essa fusão do individual no coletivo, do coletivo no individual, essa identificação do homem com a humanidade” (MEIRELES, 1979, p 65).
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Os trechos foram extraídos do artigo "A escola, a criança e a literatura infantil" de Luciana Borgerth Vial Corrêa (Mestre em Educação pela PUC-Rio com a Dissertação intitulada Infância Escola e Literatura infantil em Cecília Meireles”)
Quem quiser saber mais informações contidas artigo, aqui está o link:
http://www.historiaecultura.pro.br/modernosdescobrimentos/desc/meireles/aescolaacrianca.htm