Harold Bloom é o crítico literário mais popular do mundo. Em 2000, fez furor ao publicar, no The Wall Street Journal, um ensaio em que condenava os livros com o personagem Harry Potter, da inglesa J.K. Rowling. No Brasil, acaba de sair a primeira parte da coletânea Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes (Objetiva, 142 páginas, R$ 21,90). Nela, Bloom coleciona um elenco de textos que considera fundamentais. Seu novo livro, Gênio – Um Mosaico de Cem Mentes Exemplares e Criativas, lançado em 2001, terá edição brasileira em maio. Em quase 1.000 páginas, a obra busca nomes de gênios literários. Bloom falou a ÉPOCA por telefone, de New Haven, Connecticut, onde se recupera de uma operação e prepara dois livros: um sobre o personagem Hamlet e outro sobre o cânone da crítica – do qual ele já faz parte, mas não se inclui. ÉPOCA – Como o senhor analisa o sucesso da literatura infantil atual? Harold Bloom – É um fenômeno de mercado. A maior parte dos livros para crianças à venda nas livrarias é idiota, não serve para nada, muito menos para suprir a necessidade de leitura de uma criança ou do leitor de qualquer faixa etária. Livros estão sendo confeccionados para vender e se tornar sucessos no cinema e na televisão. Isso nada mais é que uma máscara que oculta o rosto cada vez mais estúpido da era da informação. Os tais livros infantis ajudam a destruir a cultura literária. ÉPOCA – Sua opinião mudou em relação à série Harry Potter? Bloom – Odeio Harry Potter. É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor. Não tem densidade. A escrita é horrível. Lancei a polêmica, sabendo que eu atuaria como Hamlet, que defronta com um oceano de aborrecimentos. Continuo me incomodando com os fãs do pequeno feiticeiro. ÉPOCA – Existe solução para incentivar a leitura entre os jovens? Bloom – Não vejo diferença entre literatura adulta e infantil. Existe, sim, uma diferença essencial entre boa e má literatura. A solução está na boa leitura, em todas as idades. A primeira idéia da coletânea que organizei era criar um compêndio de boa leitura, que se intitularia O Leitor Solitário. Aos poucos, me dei conta de que estava fazendo um livro para jovens, com poemas e histórias simples, sem prejuízo da qualidade. Percebi então que poetas como John Keats e John Donne poderiam servir para alimentar a imaginação da juventude, assim como os contos de C.K. Chesterton e Robert Louis Stevenson. ÉPOCA – Mas por que existe essa separação entre literatura para pequenos e grandes? Bloom – Diferenciar livros para crianças e para adultos foi útil na divisão do mercado do século passado, mas hoje encobre um fato muito grave: o de que a estupidez está acabando com a cultura literária. As crianças de hoje não são mais burras que as de antigamente. O problema está em vencer modismos e chamar a atenção para bons exemplos literários. Talvez a queda dos índices de leitura se deva aos maus exemplos que os pais estão dando a seus filhos. |
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